Testemunho de Pr Kim, artigo 3 프린트   
관리자  Homepage Email [2020-08-25 15:28:12]  HIT : 149  

3. Saboreando as iguarias da Amazônia.
 

Comer comida coreana na Amazônia é algo inimaginável. Geralmente o cardápio era comida brasileira. O mais próximo da comida coreana era prato de arroz brasileiro soltinho, que dançava ao vento quando esfriava, servido com sopa de deng-jang (parecido com missoshiro japonês mas mais encorpado). Depois de décadas comendo comida regional, a comida coreana já não fazia mais falta. Só quando ficava doente e perdia o apetite que dava vontade de comer a comida da terrinha natal. O paladar até parecia ressuscitar quando, de vez em quando, comia kimtchi (acelga apimentada curtida).

Quando íamos visitar as comunidades indígenas para ministrar e prestar atendimento médico, ficávamos no local de 7 a 10 dias e comíamos a comida que nos serviam. No início isso era apavorante. mas como não podíamos demonstrar o nosso medo, a hora da refeição era um tormento. No Rio Negro, nossa área de trabalho, não há peixe e animais em abundância e nem meios para armazenar por longos períodos animais e peixes. Assim, logo que caçavam peixes e animais, montavam uma grelha de madeira a 1 metro do chão e colocavam para defumar. Depois de defumar por várias horas, a pele do animal ou do peixe ficava carbonizada, dura igual uma múmia, podendo ser armazenada ao ar livre por meses. Para cozinhar esses alimentos defumados, primeiro retira-se a pele queimada e dura, coloca na água para amolecer, e enche a panela com água e coloca pimenta e molho à base de formigas e deixa ferver. A caldeirada de macaco, jacaré ou peixe defumado fica com uma coloração enegrecida. A mãos fechada do macaco faz pressupor que a dor foi grande quando foi abatido. No prato é possível ver mão fechada do macaco ou seu crânio que parece a cabeça de nenê. Não é fácil comer este tipo de comida na primeira vez.
 

Contudo, comer com prazer a comida preparada pelos irmãos era a condição principal para se tornar um com eles. Estava consciente dos olhares dos irmãos que nos oferecia as iguarias. Engoli a comida a minha frente pensando que não havia nada que me impedisse de comer se o ato de comer salvasse uma alma. Na época do seminário tive acesso a um relatório de missão de um missionário estrangeiro que trabalhou na Coreia no início do século passado. Lá ele contava que os missionários, quando convidados para comer na casa dos nativos, só comiam a porção central do prato de arroz pois achavam o prato de comida suja e evitavam de comer o arroz na borda do prato. Naquela época critiquei essa atitude mas, agora como missionário percebi que a dificuldade era maior para mim. Mas com o passar do tempo, passei a sentir o nuance de cada prato de comida. Ao colocar a farinha (mandioca torrada e moída) nos diversos tipos de caldeirada, o sabor do caldo mudava e dava água na boca. Um dos pratos preferidos da nossa família é a sopa de peixe defumado temperada com tempero a base de formigas e pimenta regional (murupi). A Amazônia é um lugar completamente limpo e sem poluição. A farinha, os peixes e animais caçados nessa região são todos alimentos orgânicos de primeira qualidade. Deus nos ofereceu os melhores alimentos do mundo. Agora, a comida regional dos irmãos é uma delícia na boca.
 

No segundo ano de funcionamento do instituto bíblico, matricularam-se alguns alunos casados. Um deles quis trazer a família junto pois, segundo ele, a comunidade não era lugar seguro para uma mulher sem a presença do marido. O problema era que não havia alojamento para alunos casados. O aluno se prontificou a construir o alojamento. Oferecemos o material necessário para construção e aconselhamos os outros alunos a ajudarem o colega. Mas, surpreendentemente, ninguém se ofereceu para ajudar. Um dia a missionária Rute, insatisfeita com a atitude deles, disse a eles:

“Seu amigo está construindo a casa sozinho. Favor ajudem ele. Vocês não ajudam ele porque vocês
sem coração de ajudar”.
 

Porém, isso provocou um forte protesto por parte dos alunos pois houve um mal-entendido. Entenderam o ‘não tem vontade’ com ‘não tem coração’, pois na língua portuguesa, o coração é a fonte dos sentimentos. A reação irada dos alunos foi provocada pela dolorida experiência histórica. Os brancos que conquistaram a América do Sul costumavam dizer que ‘indígenas são como animais sem coração que correm nos pastos’ ou ‘indígena bom é indígena morto’. O desprezo e os maus tratos dos brancos geraram a ira no inconsciente dos indígenas de todas as etnias, e a interpretação errônea da palavra ‘vontade’, dita pela missionária Rute, por ‘coração’, foi o estopim que fez explodir o antigo sentimento histórico. Não foi fácil resolver o mal-entendido e a barreira linguística continuou como foco de problemas em outras áreas. Em especial, era muito difícil fazer com que compreendessem os conceitos como amor e perdão, e paz. Eram conceitos que só seriam totalmente compreendidos na prática, ao verem, sentirem e experimentarem o verdadeiro amor e perdão demonstrados por alguém. Hoje penso que, assim como a falta de fluência na língua indígena provocou situações embaraçosas, mal-entendidos foram causados por termos interpretado as suas línguas da nossa maneira. Com isso ferimos e fomos feridos. Ao refletir nos dias que se passaram, sinto muito e fico envergonhado.
 

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     1494. Testemunho de Pr Kim, artigo 2
     1492. Testemunho de Pr Kim, artigo 4